segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Dois Bandidos

Não havia no mundo pessoa que não se encantasse por Celso. Não era dos mais belos e fortes, nem provinha de uma família rica ou influente, mas já na infância apresentava de forma plena sua capacidade de cativar as pessoas sem ter que fazer muito por elas - na verdade, nem era preciso fazer algo. Que sua mãe, vós e tias dedicassem a ele muitos mimos não é fato de causar grande surpresa, sendo ele o primogênito de ambas famílias materna e paterna. Mas com a chegada de irmãos e primos deu-se a diferença: nunca entrou em desavença com eles, ao contrário, era o preferido da família e ninguém questionava seu pequeno reinado. Na escola, era o líder das turminhas - ressalto o plural, pois participava de várias e era desejado como membro em todas. Com os professores era ainda mais evidente (e eficaz) seu carisma e nenhum colega achava injusto que fosse dele as maiores atenções e cuidados.

Sempre foi rodeado por pessoas que o amavam incondicionalmente e não só lhe apresentavam oportunidades pra tudo o que quisesse como também poderiam sem sacrifício algum guiá-lo por todo caminho entre a vontade e a conquista. Mesmo ainda jovem, era detentor de muito conhecimento e experiência e em seu futuro não se viam obstáculos. Vivia tão cercado de maravilhas que mal tinha tempo para reparar na tristeza intrínseca do ser humano, nem em si, muito menos nos outros. Mas era inocente nesse descaso, pois não tinha culpa em induzir nas pessoas em sua volta que elas lhe mostrassem apenas o melhor que podiam. Era como se fosse mais que um deus, merecendo apenas agradecimento e nenhum questionamento.

Antes de seus 17 anos nunca lhe passou pela consciência o fato ser especial - e na de nenhuma outra pessoa, uma vez que qualquer humano que quisesse observá-lo, por mais cético ou desafiador que fosse seu gênio, iria inevitavelmente se render ao seu carisma infinito e reconfortante. As coisas realmente mudaram numa singular noite em que, voltando pra casa sozinho e calmamente, encontrou dois sujeitos. Ao ser abordado pelos dois, assaltantes armados, sentiu pela primeira vez medo e insegurança de verdade. E bastou isso para invocar uma proteção insuperável. Os bandidos, vendo em Celso a face pálida e olhos arregalados de susto, caíram em profundo remorso pela aflição que causaram. Em um instante, cada um, consciente apenas de seu próprio arrependimento por aquele ato, via no outro o inimigo de Celso e o tomava para si também como inimigo. E para se redimir do mal causado, cada um decidiu tirar a vida do outro. O mais rápido atirou e o baleado, que compartilhava com seu assassino - e até o segundo anterior amigo - o forte sentimento de culpa, deixou-se cair e morrer. No próximo instante, vendo o que fez a Celso e seu amigo, o bandido ainda vivo não pode suportar tamanha desventura e aliviou sua angústia na bala que, através do movimento de seus próprios dedos, perfurou-lhe a cabeça. Celso, atônito, recebeu através dos dois bandidos a oportunidade mais importante de sua vida, talvez sua supremacia ou então sua ruína: o conhecimento do seu poder de ser amado. 

0 comentários: