Não, ele não conseguia descobrir de onde vinha tanta dor. Desde que podia se lembrar, a angústia era sua companhia constante. Sentia-se mal por si, mal pelos outros e mal por sentir-se mal. Sentia-se mal também por apesar disso ainda persistir em viver mal assim. Começava a perder a paciência com sua passividade frente a tudo, sentir raiva... mas só voltava sua raiva para si mesmo – como se fosse o culpado. e assim permanecia no mesmo estado, triste por estar triste.
Coincidentemente – já que coincidência é a regra do jogo – foi ele um dos que se depararou com a besta Ira, aquele moto-contínuo de dor e destruição. Não podia ser pessoa mais propícia para esse encontro e a Ira, assim que o possuiu, desenvolveu-se rapidamente.
Foi num dia incomum, quando, ao olhar pela janela de seu quarto, sentado em sua cama, perdeu-se no tempo e espaço. Contemplando o céu aberto dum fim de tarde, sentiu algo diferente tomando conta de sua vontade. Toda sua percepção mudou drasticamente, mas ele não sabia explicar pra si mesmo como. Somente olhou-se no espelho e viu um ser todo azulado: pele, pelo e olhos. Furou-se com uma agulha e viu seu sangue também azul. Não só sua a cor tinha mudado, mas também seu semblante, que passara do triste para o sereno. De fato, o sentimento de tristeza profunda que gurdava transformou-se em estranha paz. Ira tomou forma.
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